JOALHARIA CONTEMPORÂNEA: reconfiguração da comunicação simbólica

Um símbolo é sempre um elemento relacional, na medida em que une sujeitos em torno de um interesse partilhado. Tanto os adornos primordiais, como as jóias tradicionais seguem códigos de comunicação. São símbolos com valor de signo, capacitados para demonstrar os valores ou a organização social de cada comunidade, na sua totalidade ou em segmentos da sociedade que partilham uma visão do mundo.

A joalharia contemporânea abandonou o mundo das commodities. Configurando-se como extensão do universo da arte, investe na construção de significados, sentidos e mensagens implícitas. O discurso comunicativo foi reconfigurado. Tornou-se, como em toda a arte, descodificado, interpretável. Esta experiência estética propõe-se como partilha do sensível, num universo híbrido, onde se acorde que das tensões entre heterogeneidades nasce renovação.

 

Ana Campos, 2011

Paper de conferência no Colóquio Moda & Comunicação: MUDE – Museu do Design, Lisboa, 1 de Abril de 2011

 

Resumo

Um símbolo é sempre um elemento relacional, na medida em que une sujeitos em torno de um interesse partilhado. Tanto os adornos primordiais, como as jóias tradicionais seguem códigos de comunicação. São símbolos com valor de signo, capacitados para demonstrar os valores ou a organização social de cada comunidade, na sua totalidade ou em segmentos da sociedade que partilham uma visão do mundo.

A joalharia contemporânea abandonou o mundo das commodities. Configurando-se como extensão do universo da arte, investe na construção de significados, sentidos e mensagens implícitas. O discurso comunicativo foi reconfigurado. Tornou-se, como em toda a arte, descodificado, interpretável. Esta experiência estética propõe-se como partilha do sensível, num universo híbrido, onde se acorde que das tensões entre heterogeneidades nasce renovação.

Palavras-Chave Comunicação, símbolo/signo, símbolo/interpretação, hibridez, comunidade consensual, partilha do sensível.

 Os adornos corporais estão entre as formas de comunicação social e cultural simbólicas mais antigas. Onde o clima permitiu, existiram antes do vestuário. Nas sociedades primordiais um adorno não estava, forçosamente, ligado a embelezamento corporal, ainda que a própria palavra que os designa, do ponto de vista ocidental, o pareça indicar. Feitos dos mais variados materiais – terra, pinturas naturais, pedras, metais – sendo permanentes, como por exemplo as escarificações, ou temporais, como essas pinturas, estes adornos correspondiam a códigos sociais específicos de cada comunidade. Aí mesmo, tornavam visível uma organização social. Comunicavam estatuto ou deveres sociais, uma dada idade – ou seja um período de tempo, sendo o mais comum sete anos – à qual correspondia o papel social de cada usuário na hierarquia organizativa, por exemplo, os seus deveres enquanto caçador, ou pastor. Noutros casos, indicavam papeis de género, por exemplo, quantos filhos teve uma mulher, ou se outras/outros estavam candidatos a casar, ou se para outros/outras estava a chegar o momento da circuncisão. Estes códigos simbólicos não são generalizáveis. Correspondem a um dado universo social, como se organiza e ao que confere valor. Diferenciam de outros grupos, ainda que vizinhos. Como tal, cada grupo tem os seus códigos simbólicos e só os homens e mulheres que pertencem a dada comunidade sabem ler o que, sem palavras, comunicam. Conhecem também os momentos de mudar cada adorno, sendo frequente acontecer em momentos rituais. Como símbolos, os adornos unem sujeitos em torno de um interesse partilhado: são, portanto, elementos relacionais.

Na civilização ocidental, como noutras grande civilizações, por exemplo a Indiana do período Mongol, as jóias dão continuidade a este processo codificador, inscrevendo outros aspectos sociais e relacionais. Contudo, a jóia Europeia é um adorno, uma decoração do vestuário feminino ou masculino que privilegia valores económicos, ou seja os materiais com que é fabricada (ouro, prata, pedras). Mas, simultaneamente, tem funções sociais: na Europa Medieval indica poder régio, aristocrático e religioso. Na pintura do Renascimento e posterior, até ao período barroco, o ouro e as jóias são auxiliares importantes para indicar, celebrar e hierarquizar esses papeis. Até se tornar possível uma nova abertura relativa à emancipação do sujeito, no período moderno, o direito ao uso de jóias era exclusivo de classes sociais elevadas.

Poucas destas jóias chegaram aos nossos dias com um papel de indicador social codificado, sendo a aliança de casamento uma das poucas que, democraticamente – portanto, longe da ostentação dessas outras antes referidas – é um símbolo socialmente conhecido e partilhado por largas franjas da sociedade ocidental. Se para muitos outros não tem significado nenhum, é, ainda assim, um símbolo com valor de signo, onde sabemos ler claramente: está casado/a. Os piercing as tatuagens actuais, como as jóias dos rappers e de outros grupos urbanos, contêm também códigos simbólicos. São sinais indicadores de identidade. Contudo, a sua leitura é segmentada e apenas são entendidos por cada grupo urbano que os adopta, dando-lhes significados ou sentidos específicos. Também existem na contemporaneidade jóias indicadoras de poder económico e social. Para estas recorro à sua denominação de origem, a haute joaillerie. Da Place Vendôme, em Paris, várias marcas estendem-se, hoje em dia, à fifth avenue em New York, a Tóquio, a Hong Kong e a muitas outras cidades do mundo. Para estas marcas, designers-artesãos sofisticados fabricam luxo e desejo de emergir socialmente, em forma de jóias de ouro, platina e diamantes. Aqui incluo, também, as jóias Hip-Hop, fabricadas por Jacob the Jeweler e por outros joalheiros, destinadas aos rappers que pretendem mostrar a sua ascendência socioeconómica.

Estas jóias têm capacidades para comunicar simbolicamente uma crença, um papel civil, uma identidade. Têm um significado simbólico, ainda que sigam códigos segmentados. Dão continuidade a antigas tradições de sinalização. São conformistas, não questionam códigos de uso. Pouco ou nada se renovam formalmente, através dos tempos e de diferentes contextos históricos. São coisas, são commodities.

O que é comunicar? Esta é uma ampla questão pragmática. O multifacetado campo da joalharia permite explorar e distinguir dois dos seus muitos aspectos. Como comunica a arte? Como comunicam as coisas? A questão – como se distinguem estas formas de comunicação entre si? – tem sido amplamente estudada por Danto. Os adornos e as jóias, como vimos, comunicam simbolicamente. Como tal, a priori distinguem-se de outras coisas. Contudo, em joalharia as últimas jóias referidas também se situarão na vertente coisas, na medida em que são conformistas. Isto é: por um lado, seguem, sem questionar, códigos organizativos e comunicativos; por outro, quase não se renovam do ponto de vista configurativo.

Outras extensões da joalharia caminham, desde os anos sessenta, para uma abertura comunicativa pluralista, que se inaugura a par da renovação das formas. Outros joalheiros – nascidos entre a vigorosa geração baby-boom – adoptam uma política emancipadora. Assumem o abando de sistemas codificados e, nesta medida, iniciam uma reconfiguração comunicativa, relativamente àquela que ainda hoje é tradicional noutros campos da joalharia. Com esta nova joalharia[i], a comunicação artística, articulada com a poiesis – com o campo criativo – é desenvolvida por caminhos reflexivos que levam, como toda a arte, à construção de significados, mensagens ou sentidos implícitos. O que vemos, não corresponde apenas ao que vemos. Estão inscritas num discurso próprio. Conduzem a experiencias interpretativas.

Com esta vanguarda, a nova joalharia, nascem razões comunicativas que demonstram intenções de derrubar princípios burgueses e capitalistas. Como outros artistas seus contemporâneos, estes joalheiros aproximando-se da vida e de princípios democráticos. O discurso que constroem situa-se na oposição a esses princípios capitalistas e burgueses. Perguntam-se: qual é a função (social) de uma jóia? Se, tradicionalmente é um adorno do vestuário – no sentido literal da palavra – e se , segundo o gosto burguês, é algo que serve para embelezar, então, desestetizam as jóias. Sobredimensionam-nas, indo por vezes além das dimensões do corpo, impossibilitando intencionalmente o seu uso, salvo em actividades performativas. Se o ouro é durável, usam materiais efémeros. E se o ouro representa o gosto burguês e princípios capitalistas, negam usá-lo. Se a moda representa um sistema capitalista, afastam-se. Se a bijutaria – coisa falsa, segundo a denominação de origem – não tem significados implícitos, ignoram-na. Constroem um mundo discursivo com uma identidade própria, arrastando-o consigo, em permanente questionamento. Este mundo é também institucional, inclui museus e galerias, relações expositivas e comerciais específicas.

 Há neste discurso um ar do tempo. Por um lado, lembram as actividades revolucionárias do Maio 68, em que os estudantes, embora revolucionando, não pretendiam rompimento social, mas sim mostrar necessidade de mudança e renovação. Por outro, lembram Robert Rauschenberg, quando afirmou “painting relates to both art and life. Neither can be made. (I try to act in that gap between the two).” Trabalhando na fronteira entre arte e questionamento da ordem pública, estes «joalheiros» insistem em intitular-se joalheiros e em manter, também, a designação «joalharia». Interpretam os próprios materiais como meios para construir mensagens incluídas nas «jóias». Na perspectiva rancièriana, este joalheiros, sujeitos emancipados de imposições normativas, introduzem novos objectos, participando na constituição numa nova política estética.

Gold makes you blind, a paradigmática pulseira de borracha negra e opaca de Otto Künzli – a meu ver, melhor que qualquer outra peça – sublinha novas questões introduzidas a partir dos anos oitenta pela joalharia contemporânea. O ouro está de volta. Mas ganhou valor de conteúdo. É um meio para construir sentido: a pulseira cega uma esfera de ouro, enquanto o título remete para a cegueira provocada por vontades de possuir ouro ou por corridas ao ouro e pela exploração do homem em minas. Assim, aquilo que, segundo princípios tradicionais, seria de esperar que adornasse, está tapado, cego.

A joalharia contemporânea mantém sempre essa vontade de participar na vida, criticando ou desafiando, pluralmente, os mais variados aspectos quotidianos. Todos os meios são constructos de sentido e de significado. Nenhuma matéria é usada por acaso, independentemente do seu valor económico, quer se trate de papel, de madeira ou de platina. São palavras com as quais construímos frases e, portanto, sentido comunicativo. Funcionam como argumentos para criticar, desafiar, jogando sem outro interesse que não seja o de construir sentido. As formas aliam-se às matérias como meios sensíveis que integram o que Hegel chamou Gestalt, o suporte de um significado, aquilo que Hegel designou Inhalt. Na sua definição de arte, Danto aponta o embodied meaning (Inhalt em Hegel), como condição necessária de toda a obra de arte.[ii] Opõe os objectos, porque comunicam sem um significado implícito.

A arte contemporânea é uma arte de significados. Não há comunicação artística sem uma forma que lhe confira visibilidade. No entanto, a arte contemporânea abandonou a correlação entre meios ou modos de representação. Por exemplo, as artes mecânicas – o cinema e a fotografia – como foca Rancière, deram visibilidade ao sujeito anónimo, quando deixaram de ser apenas técnicas e passaram a incluir um significado. Entretanto, no caso da nova joalharia e da sua vertente contemporânea, falar de meios justifica-se, na medida em que integram um processo de reconfiguração comunicativa. Estabelecem conexão entre o joalheiro – sujeito antes anónimo, que questiona a ordem pública e se emancipa de regras – que, intencionalmente, selecciona determinados meios para investir em significados reflexivos ou mensagens implícitas. Assim, os meios, por um lado, são argumentos de suporte do acto criativo que permitem sublinhar intenções comunicativas. Por outro, estão relacionados com um tipo de discurso comunicativo que é híbrido: tornam visíveis tensões, configuradas como desafios, tanto à arte (bela), apropriando-se do seu modo de comunicar, como às jóias tradicionais que comunicam através de regras.

Em parte, a joalharia contemporânea, retoma à importância do significado e a forma de comunicação simbólica dos adornos primordiais, nos quais o que mais importava era o significado e, não tanto, a beleza. Se a joalharia contemporânea também não propõe estetização, a grande diferença reside no facto de os joalheiros contemporâneos se terem soltado do espartilho estabelecido por códigos comunicativos. Emancipam-se, como habitantes de uma Polis, no sentido antigo deste termo Grego, uma cidade e entidade política com cidadania participativa. Neste sentido, exploram a liberdade introduzida pelo período moderno, abrindo agora caminhos para o pluralismo. A jóia torna-se uma espécie de complemento secundário, sob a valorização do processo reflexivo e das razões comunicativas e criativas. Ao questionar o mundo, os artistas cumprem uma tarefa democrática. Por um lado, porque pensam o mundo contemporâneo, não para mudá-lo, mas para alertar. Por outro, porque propõem que pensemos e participemos em experiencias reflexivas. Em arte, a comunicação é pluralista, tanto quanto a experiência do fruidor. Não é, como sublinha Vilar, uma comunicação “ordinária e ordenada, mas uma comunicação extra-ordinária e des-ordenada”.[iii] Isto é, está solta de um sistema simbólico que determine como devemos pensar e agir. A experiência estética é interpretativa, vive e dá-se em diálogo com a obra e com os significados que nos propõe.

Esta experiência estética pode dar-se como partilha do sensível, num universo híbrido e emancipado, onde se acorde que das tensões entre heterogeneidades nasce renovação. Rancière propõe a “formação de uma comunidade «consensual», quer dizer, já não uma comunidade onde todos estão de acordo, mas uma comunidade levada a cabo como comunidade de percepção.”[iv] Seguindo a mesma ordem de ideias, para Rancière, a partilha do sensível contém e fixa partes comuns, entendidas como partilháveis, e partes exclusivas. “Funciona como um sistema de evidências sensíveis que dá a ver, ao mesmo tempo, a existência do comum e os cortes que aí definem os lugares e as partes respectivas”[v]

Sem pretender reduzir este complexo conceito, proponho que consideremos este «consenso», recorrendo a Ted Noten, cuja obra aqui também é apenas aflorada. Sendo a joalharia contemporânea pluralista e um work in progress, este autor, caso singular, recorre à estetização e, procedendo com o seu conhecido humor aproveita para criticar. Escolhe um tipo de beleza estereotipado, associável a meios de comunicação vulgares, a um certo gosto kitsch, surpreendente ligada ao mundo das coisas, da publicidade, do lugar comum e não à comunicação artística. Esta beleza não surge por acaso. Como em todas as extensões da arte contemporânea, é dominada por significados, por uma intenção de comunicar um conteúdo de natureza reflexiva. Portanto, exige de nós um esforço para compreender, se pretendemos participar na experiência estética.

Considerando a relação das jóias com o corpo humano, Noten apresentou uma exposição no Stedelijk Museum com uma catwalk que designou Tedwalk. Enquanto passagem de modelos é uma caricatura. Supostamente recorre a uma linguagem e a um processo de apresentação característico da moda. Porém, a linguagem é híbrida, não pertencendo claramente à moda, nem à arte, nem à joalharia. Ainda em cena, reduziram-se as luzes durante o momento em que as jóias foram retiradas para serem colocadas em vitrinas. Assim, os trabalhadores são participantes na performance. A música sublinha as várias fases performativas.

Nas jóias, foca marcas conhecidas que representarão o gosto por um certo chic estereotipado, a la Vuitton, a la Gucci, etc. Também interpreta tipos de mulheres, quer como caricatura de opções politicas, quer como caricatura de outras vertentes da vida quotidiana. Quando foca acções políticas sublinha que, não sendo vividas, mas vistas à distância do respectivo contexto se transformam em imagem-coisa, própria do fait divers, do lugar comum. Tianjin red drill fica entre berbequim, metralhadora e adereço. Em Lady K bag nr.4, congela uma pistola e uma bala ready-made, propositadamente plaquée or. Os artefactos perdem a possibilidade de ser usados, segundo o fim para que foram feitos, passando a ser supostos adereços de moda. Criticando com humor, Noten propõe que pensemos na estetização da própria vida, em riscos da sociedade de consumo, como o desejo de mudança de imagem pública sazonal, ou a ascensão fácil proporcionada pela alteração de uma identidade construída com base na visibilidade.

___________

[i]   A designação nova joalharia – entendida como manifestação artística – foi apresentada internacionalmente pelo livro: Dormer, Peter, Turner, Ralph, New Jewellery: trends and traditions, London, Thames and Hudson, 1987. Adiante refiro a nova joalharia, como conceito introduzido por estes autores. Por joalharia contemporânea, entendo a categoria que lhe deu continuidade, a partir dos anos noventa.

[ii]   Vilar, Gerard, 2005, Las razones del arte, Madrid, Machado.

[iii]   Vilar, Gerard, “La comunicació en l’art contemporani. Nous i vells problemes de l’estètica filosòfica”, Barcelona, Anàlisi 29, 2002 159-173

[iv]   Ranciére, Jacques, 2005, Sobre políticas estéticas, Barcelona, MACBA, UAB: 30.

[v]    Ranciére, Jacques, 2000, Le partage du sensible, Paris, La Fabrique: 12.

_____________________________________________________________

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s